Dezenas de mulheres
esgueiram-se sobre o que parece ser a única fonte natural de água
algures em Chihari, na localidade de Changanine, em Chibuto. Na verdade
tal fonte não é mais que uma nascente incrustada num enorme charco
coberto de algas, carrapichos e erva daninha.
Lixo e excrementos de
animais espalham-se nas cercanias e não desanimam pessoas que, em
passadas extenuantes, percorreram quilómetros e quilómetros à busca do
chamado precioso líquido.
Sem meias palavras e com vasilhas de água a
tiracolo, senhoras dizem-nos que para gente sofredora, tanto faz a água
estar ou não com carrapichos ou com excrementos de bichos. Para elas, o
“precioso” líquido está ali como pão para boca. “Estamos famintos e com
sede. Depois de percorrermos tanta distância à busca de água, vamos ter
medo de quê? “, perguntam-nos.
esgueiram-se sobre o que parece ser a única fonte natural de água
algures em Chihari, na localidade de Changanine, em Chibuto. Na verdade
tal fonte não é mais que uma nascente incrustada num enorme charco
coberto de algas, carrapichos e erva daninha.
Lixo e excrementos de
animais espalham-se nas cercanias e não desanimam pessoas que, em
passadas extenuantes, percorreram quilómetros e quilómetros à busca do
chamado precioso líquido.
Sem meias palavras e com vasilhas de água a
tiracolo, senhoras dizem-nos que para gente sofredora, tanto faz a água
estar ou não com carrapichos ou com excrementos de bichos. Para elas, o
“precioso” líquido está ali como pão para boca. “Estamos famintos e com
sede. Depois de percorrermos tanta distância à busca de água, vamos ter
medo de quê? “, perguntam-nos.
A interrogação atravessa-nos o
rosto como se de chapada se tratasse. Alheias à tudo, as senhoras,
descalças, e com pés enlameados, mergulham na única fonte e, recorrendo a
pequenas vasilhas, retiram alguns litros de água.
Estimuladas pelo
adágio popular que diz água não dá azar (amati a manyike khombo, em
changana) sorvem pequenas quantidades e matam a sede ali mesmo, sem se
importarem com a higiene.
“Não temos medo de nada. Bebemos assim
mesmo. Estamos habituadas”, diz-nos Florinda Muthombene, ajuntando:
”Vamos fazer o quê? Não temos outro local para buscar água”.
rosto como se de chapada se tratasse. Alheias à tudo, as senhoras,
descalças, e com pés enlameados, mergulham na única fonte e, recorrendo a
pequenas vasilhas, retiram alguns litros de água.
Estimuladas pelo
adágio popular que diz água não dá azar (amati a manyike khombo, em
changana) sorvem pequenas quantidades e matam a sede ali mesmo, sem se
importarem com a higiene.
“Não temos medo de nada. Bebemos assim
mesmo. Estamos habituadas”, diz-nos Florinda Muthombene, ajuntando:
”Vamos fazer o quê? Não temos outro local para buscar água”.
Florinda rotulou a situação de grave, contudo admitiu que a população
vive exposta ao desespero, ao risco, por não encontrar melhores
alternativas.
Joana Novela, com os pés mergulhados na água que irá
consumir, diz-nos, calmamente: “Fazer o quê? A água recuou, então as
pessoas seguem o seu rasto, vão ao encontro, por isso mergulham no
charco”.
Para as nossas entrevistadas, o exercício físico de
filtração, decantação e às vezes de fervura de água é algo que só pode
ser praticado por quem “não tem pressa de viver”.
vive exposta ao desespero, ao risco, por não encontrar melhores
alternativas.
Joana Novela, com os pés mergulhados na água que irá
consumir, diz-nos, calmamente: “Fazer o quê? A água recuou, então as
pessoas seguem o seu rasto, vão ao encontro, por isso mergulham no
charco”.
Para as nossas entrevistadas, o exercício físico de
filtração, decantação e às vezes de fervura de água é algo que só pode
ser praticado por quem “não tem pressa de viver”.
Alguns
dirigentes que nos acompanham nesta viagem de triste memória começam a
mostrar evidentes sinais de sede e desidratação. O sol tórrido de
Chibuto parece determinado a tornar a terra mais seca.
Com água
mineral nos carros, hesitam em ir buscá-la. Diante de sofrimento de
dezenas e dezenas de moçambicanos naquela fonte, mostram vergonha de
bebericar algo potável. A solução foi mesmo compartilhar a miséria. O
Chefe do posto de Changanine, Custódio Manjate, acabou consumindo a água
oferecida pela Joana, esta ainda com os pés enlameados dentro do
charco.
E o próprio chefe justifica a solidariedade: “Para alcançar
esta água, imprópria diga-se, a população percorreu quilómetros e
quilómetros”.
Com 14 333 habitantes, segundo censo local de 2016, o
posto administrativo de Changanine se depara com graves problemas de
falta de água, existindo apenas fontanários em Hate-Hate, Hongonhe,
Khatlene, Mangoro e na já famosa nascente de Chihari.
Custódio
Manjate explicou que as restantes zonas bebericam água recorrendo mesmo a
lagoas e poços tradicionais, que revelam, entretanto, sinais de alguma
escassez.
Referiu ainda que esta unidade administrativa identificou,
mesmo com a crise, sítios para abertura de represas de água que são
mais eficazes na conservação por muito tempo, tomando como prioridade
zonas baixas que possuem condições favoráveis para o efeito,
designadamente Chikundzo (Chitsuluine), Tinwarini, Guidione (Changanine)
e Chiwombe (Mangoro).
dirigentes que nos acompanham nesta viagem de triste memória começam a
mostrar evidentes sinais de sede e desidratação. O sol tórrido de
Chibuto parece determinado a tornar a terra mais seca.
Com água
mineral nos carros, hesitam em ir buscá-la. Diante de sofrimento de
dezenas e dezenas de moçambicanos naquela fonte, mostram vergonha de
bebericar algo potável. A solução foi mesmo compartilhar a miséria. O
Chefe do posto de Changanine, Custódio Manjate, acabou consumindo a água
oferecida pela Joana, esta ainda com os pés enlameados dentro do
charco.
E o próprio chefe justifica a solidariedade: “Para alcançar
esta água, imprópria diga-se, a população percorreu quilómetros e
quilómetros”.
Com 14 333 habitantes, segundo censo local de 2016, o
posto administrativo de Changanine se depara com graves problemas de
falta de água, existindo apenas fontanários em Hate-Hate, Hongonhe,
Khatlene, Mangoro e na já famosa nascente de Chihari.
Custódio
Manjate explicou que as restantes zonas bebericam água recorrendo mesmo a
lagoas e poços tradicionais, que revelam, entretanto, sinais de alguma
escassez.
Referiu ainda que esta unidade administrativa identificou,
mesmo com a crise, sítios para abertura de represas de água que são
mais eficazes na conservação por muito tempo, tomando como prioridade
zonas baixas que possuem condições favoráveis para o efeito,
designadamente Chikundzo (Chitsuluine), Tinwarini, Guidione (Changanine)
e Chiwombe (Mangoro).
O sofrimento que se vive devido a estiagem
é de encher o olho de lágrimas. A nossa Reportagem viu longas filas de
pessoas percorrendo grandes distâncias a pé entre Alto Changane e
Chitsuluine.
Outras recorriam a burros ou mesmo ao gado bovino para
transportar água. Burros carregam no dorso dois ou mais recipientes de
água quando não movimentam carrinhas sem motor cheias de dezenas de
vasilhas. O animal alcançou naquelas regiões, estatuto nobre. Quem não
tem burro é pobre, dizem-nos.
Sulcos em terreno acidentado
transformam-se, amiúde, em pequenos reservatórios de água proveniente da
pouca chuva que cai. Humanos e animais dividem o pouco líquido que a
natureza oferece.
é de encher o olho de lágrimas. A nossa Reportagem viu longas filas de
pessoas percorrendo grandes distâncias a pé entre Alto Changane e
Chitsuluine.
Outras recorriam a burros ou mesmo ao gado bovino para
transportar água. Burros carregam no dorso dois ou mais recipientes de
água quando não movimentam carrinhas sem motor cheias de dezenas de
vasilhas. O animal alcançou naquelas regiões, estatuto nobre. Quem não
tem burro é pobre, dizem-nos.
Sulcos em terreno acidentado
transformam-se, amiúde, em pequenos reservatórios de água proveniente da
pouca chuva que cai. Humanos e animais dividem o pouco líquido que a
natureza oferece.
A administradora do distrito de Chibuto já nos
tinha avisado em tom triste: “até água dos charcos é disputada no Norte
do distrito, sobretudo em Changanine, onde a situação é mesmo grave”.
A proximidade geográfica com Chigubo que, à semelhança de outros
distritos do norte de Gaza vive, cronicamente, episódios de seca severa,
parece justificar a contaminação.
Changanine é um posto
administrativo localizado a cerca de 120 quilómetros da sede do distrito
de Chibuto na província de Gaza. Está dividido em duas localidades,
nomeadamente Hate-Hate e Changanine.
É limitado a norte precisamente
pela localidade de Cubo, distrito de Chigubo, a sul e oeste com as
localidades de Alto Changane e Maqueze , igualmente afectados pela
longa estiagem.
O rio Changane, principal referência nestas regiões
em termos de curso de água, não dispõe de uma única gota. Minguou no
verdadeiro sentido da palavra. Ao longo do seu “leito” vimos crianças e
jovens a jogarem futebol.
Dos resquícios de um rio pujante, vibrante
noutros tempos, emergem tons esbranquiçados de filamento de sal,
responsável pelo facto de a água se revelar salobra nas várias
tentativas de abertura de furos nas redondezas.
Fome causa desistência escolar
Durante o primeiro semestre, 27 alunos desistiram da escola em
Changanine (10 de sexo masculino e restantes de sexo feminino) devido à
seca prolongada naquele posto administrativo,
Autoridades locais
registaram, por outro lado, 337 casos de diarreias no primeiro semestre
do ano em curso devido consumo de água imprópria.
tinha avisado em tom triste: “até água dos charcos é disputada no Norte
do distrito, sobretudo em Changanine, onde a situação é mesmo grave”.
A proximidade geográfica com Chigubo que, à semelhança de outros
distritos do norte de Gaza vive, cronicamente, episódios de seca severa,
parece justificar a contaminação.
Changanine é um posto
administrativo localizado a cerca de 120 quilómetros da sede do distrito
de Chibuto na província de Gaza. Está dividido em duas localidades,
nomeadamente Hate-Hate e Changanine.
É limitado a norte precisamente
pela localidade de Cubo, distrito de Chigubo, a sul e oeste com as
localidades de Alto Changane e Maqueze , igualmente afectados pela
longa estiagem.
O rio Changane, principal referência nestas regiões
em termos de curso de água, não dispõe de uma única gota. Minguou no
verdadeiro sentido da palavra. Ao longo do seu “leito” vimos crianças e
jovens a jogarem futebol.
Dos resquícios de um rio pujante, vibrante
noutros tempos, emergem tons esbranquiçados de filamento de sal,
responsável pelo facto de a água se revelar salobra nas várias
tentativas de abertura de furos nas redondezas.
Fome causa desistência escolar
Durante o primeiro semestre, 27 alunos desistiram da escola em
Changanine (10 de sexo masculino e restantes de sexo feminino) devido à
seca prolongada naquele posto administrativo,
Autoridades locais
registaram, por outro lado, 337 casos de diarreias no primeiro semestre
do ano em curso devido consumo de água imprópria.
A seca afecta
dois mil setenta e uma famílias afectadas no posto administrativo de
Changanine, o correspondente a 14 mil cento e trinta e cinco pessoas.
O governo central, através do Instituto Nacional de Gestão de
Calamidades (INGC) já alocou aqui cerca de 132 toneladas de milho e 15
toneladas de feijão para distribuição as populações, abrangendo 2 645
famílias afectadas.
Custódio Manjate, chefe do posto administrativo,
disse ao domingoque durante a campanha presente, foi planificada uma
área de 6 670 hectares e lavrados 6 512,5 hectares para uma produção
esperada de 28 166,1 toneladas de produtos diversos com destaque para
milho e feijões.
Trata-se, segundo o nosso entrevistado, de
estimativas aquém da expectativa segundo quadros hidrológicos da
precipitação da primeira fase, o que demonstra claramente a falta de
chuva, facto que comprometeu a produção agrícola.
Para a segunda
época da campanha agrícola 2015/25016, o posto prevê produzir em 4,354,6
hectares cerca de 11 669,3 toneladas de culturas diversas com maior
destaque para milho, feijão, e hortícolas.
População recorre
a água dos charcos
– Brígida Matavele, administradora de Chibuto
“Quando há pequenas precipitações, a população por vezes disputa água
nos charcos devido à seca”, diz-nos visivelmente preocupada, a
administradora do distrito de Chibuto.
Brígida Matavele apontou o
Norte do seu distrito como o que reporta situações mais críticas de
falta de água e destacou os postos de Changanine e Alto Changane.
Segundo a nossa entrevistada, o Banco Islâmico de Desenvolvimento (BID)
ensaiou dez furos de água naquelas regiões, dos quais seis saíram
negativos devido a infiltração salina. Só têm quatro furos apresentaram
água doce. Outros tinham água salobra, referiu.
Maqueze , uma
localidade de posto administrativo de Alto Changane é outra região
crítica mencionada pela administradora de Chibuto que reiterou : a zona
norte toda apresenta cenário preocupante, a partir de Chaimite.
Brígida Matavele explicou ao domingo que o distrito que dirige é
vulnerável à calamidades, nomeadamente secas, cheias e ciclones. Neste
momento estamos sob estiagem. Já desde 2014 havia sinais de seca, disse,
acrescentando devido a falta de chuva não houve produção na presente
época chuvosa.
Para mitigação do efeito da seca, o governo distrital
está a sensibilizar a população para produzir nas zonas baixas, focando
sua atenção às culturas tolerantes à seca, designadamente a batata-doce
e mandioca.
A administradora de Chibuto referiu ainda que a
estiagem afectou inicialmente um total de 30 236 pessoas, número que
evoluiu 90 835 afectados. “Felizmente ainda não registamos óbitos.
Contudo, perdemos 650 cabeças de gado”, ressalvou.
dois mil setenta e uma famílias afectadas no posto administrativo de
Changanine, o correspondente a 14 mil cento e trinta e cinco pessoas.
O governo central, através do Instituto Nacional de Gestão de
Calamidades (INGC) já alocou aqui cerca de 132 toneladas de milho e 15
toneladas de feijão para distribuição as populações, abrangendo 2 645
famílias afectadas.
Custódio Manjate, chefe do posto administrativo,
disse ao domingoque durante a campanha presente, foi planificada uma
área de 6 670 hectares e lavrados 6 512,5 hectares para uma produção
esperada de 28 166,1 toneladas de produtos diversos com destaque para
milho e feijões.
Trata-se, segundo o nosso entrevistado, de
estimativas aquém da expectativa segundo quadros hidrológicos da
precipitação da primeira fase, o que demonstra claramente a falta de
chuva, facto que comprometeu a produção agrícola.
Para a segunda
época da campanha agrícola 2015/25016, o posto prevê produzir em 4,354,6
hectares cerca de 11 669,3 toneladas de culturas diversas com maior
destaque para milho, feijão, e hortícolas.
População recorre
a água dos charcos
– Brígida Matavele, administradora de Chibuto
“Quando há pequenas precipitações, a população por vezes disputa água
nos charcos devido à seca”, diz-nos visivelmente preocupada, a
administradora do distrito de Chibuto.
Brígida Matavele apontou o
Norte do seu distrito como o que reporta situações mais críticas de
falta de água e destacou os postos de Changanine e Alto Changane.
Segundo a nossa entrevistada, o Banco Islâmico de Desenvolvimento (BID)
ensaiou dez furos de água naquelas regiões, dos quais seis saíram
negativos devido a infiltração salina. Só têm quatro furos apresentaram
água doce. Outros tinham água salobra, referiu.
Maqueze , uma
localidade de posto administrativo de Alto Changane é outra região
crítica mencionada pela administradora de Chibuto que reiterou : a zona
norte toda apresenta cenário preocupante, a partir de Chaimite.
Brígida Matavele explicou ao domingo que o distrito que dirige é
vulnerável à calamidades, nomeadamente secas, cheias e ciclones. Neste
momento estamos sob estiagem. Já desde 2014 havia sinais de seca, disse,
acrescentando devido a falta de chuva não houve produção na presente
época chuvosa.
Para mitigação do efeito da seca, o governo distrital
está a sensibilizar a população para produzir nas zonas baixas, focando
sua atenção às culturas tolerantes à seca, designadamente a batata-doce
e mandioca.
A administradora de Chibuto referiu ainda que a
estiagem afectou inicialmente um total de 30 236 pessoas, número que
evoluiu 90 835 afectados. “Felizmente ainda não registamos óbitos.
Contudo, perdemos 650 cabeças de gado”, ressalvou.






